Após o desafio…..

Este blog foi apenas para o desafio mesmo, eu não esperava gostar de escrever sobre as minhas leituras, mas aconteceu e, para seguir minha vontade e manter minhas leituras catalogadas e até uma forma de diário, dei continuidade a elas no blog: minhaliteratura.wordpress.com

Se você se interessar, tenha certeza que será muito bem-vindo!

 

Reflexões IV: fase final ou 100%

Concluído o desafio!!!!

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180 em 180.

Foi difícil?

Na verdade, em alguns momentos foi; principalmente neste último 1/4.

Por que?

Porque assim que estava para iniciar esta última fase, recebi uma notícia mais ou menos desconfortável (para ser bem educada) e tive certeza de outro fato também um pouco desconfortável (outra vez bem educadinha), que abalaram totalmente o que eu havia trabalhado tanto: voltar a ter sanidade para encarar o que tinha que encarar.

Notícias desconfortáveis bem no dia em que cheguei das férias, com as baterias renovadas. Hoje acredito que estavam renovadas para conseguir aguentar a carga pesada que veio com as novidades, porque pegou pesado para o meu ser.

Sai de mim por um momento, aí veio uma amiga para me chacoalhar e gritar: “Engole esse choro!”; e para outros eu tinha que fingir que tudo estava bem, e mandar mensagem de posição de normalidade. Gente, minha cabeça estava pirando, e eu, confesso, sai do ar…. fiquei dois dias completamente sem dormir. Liberei tanta adrenalina que até a dor que eu sentia em um dos meus dentes (que precisou de canal), sumiu e quando eu cheguei no dentista, após umas 12 horas das notícias, eu não lembrava de que lado doía.

Aí fiquei fora do ar um tempo, até que “a ficha caiu” e eu tive um dia totalmente “fora de mim”, e fiz coisas que não são minhas e escrevi coisas que não era eu (desculpe se você ler isso), e me consumi. Aí eu assustei. Não. Pára tudo que não sou eu. STOP!!!!

E os livros?

Até o meu momento “fora de mim” tudo estava fluindo, depois complicou. Passei dias sem conseguir abrir um livro, não conseguia ler ou fazer qualquer coisa. Modo automático. Dias duros e confusos.

Felizmente tenho amigas que se fizeram presentes e seguraram a minha onda (quanta mensagem no whats, quanto telefonema, quanto café, até karaokê, vixi…. coitados dos vizinhos!!!). Felizmente, parece que a energia trazia alguém nos meus dias de carência, de me sentindo a pior mulher do mundo, de que ninguém nunca mais vai me querer, e recebi carinho inesperado, elogio, ou telefonema.

Outros quiseram aproveitar do meu momento carente e, aviso: estar carente é diferente de ser burra!!!

Como diz a autora Nina Sankovitch, “a tristeza destrói a razão com violência, contra ela a razão não tem poder algum”.

E, com essa tristeza, e os livros? E o desafio?

Esta última fase foi dura. Sentar, me acomodar, me desligar de mim e entrar nas palavras e páginas não estava sendo fácil, mas eu fui insistindo, me empenhei, coloquei a determinação em primeiro plano e segui. Funcionou. Foi a etapa que exigiu mais de mim. Tive que fazer maratona de leitura para conseguir colocar a leitura em ordem, mesmo eu me sentindo mal fisicamente, mas eu conclui a fase.

Fiquei recordando como tudo teve início; era apenas o desejo de concluir um desafio, porque eu estava sentindo que não estava mais focada como antes, estava sempre começando ou planejando iniciar alguma coisa e nunca terminava, então, resolvi me impor um desafio, procurando algo que realmente me daria prazer em fazer e concluir. Ler.

Poucos dias depois, o desafio se tornou um foco para vencer um outro desafio, uma dor, e nos meses seguintes, como disse aí em cima, a coisa não se tornou mais fácil, ao contrário, as notícias não foram se amenizando. E foi a leitura, e a “viagem” nos livros e suas fantasias ou realidades, que me mantiveram sã em muitos momentos. Eu tinha que seguir e terminar/concluir esse desafio. A dor não poderia me vencer na reta final. Eu precisava me concentrar em buscar um “sprint” final.

Aí segui na literatura. Literatura para iluminar a minha escuridão, me dando um pouco de paz, afinal um livro não tem que fazer parte do cânone literário para trazer um pouco de luz e paz na vida de alguém, ele só tem que fazer diferença para o seu leitor, entreter o  seu leitor.

Desde o início das novidades pesadas, eu precisava buscar um espaço para me acomodar, para acomodar meus pensamentos, para acomodar a minha razão, para lembrar de quem sou e do que é importante para mim, além de ter um intervalo. Eu precisava mesmo de momentos de descanso, porque eu parei de dormir, eu parei de viver por um tempo, estava completamente perdida, tentando entender o que estava acontecendo, e quando me senti pronta, tive que recomeçar outra vez, pois novidades surgiram e eu me perdi de novo. E não tenho como mensurar quanto os livros me deram esse descanso. Quanto esse desafio me deu esse descanso, pelo simples fato de eu conseguir livrar minha mente dos meus problemas e focar no desafio e nas tramas.

Nossa vida se divide em momentos, esses momentos podem ser de alegria, mas também são de perda, de sofrimento, de dificuldade, nem sempre os momentos são bons; eu ainda acredito que, a maioria dos eventos e momentos são de neutralidade, os de felicidade são fugazes e os de dor são aqueles que acabamos por definir como o “antes” e “depois”, dividindo nossas fases de vida entre eles. Para algumas pessoas, nesses momentos, o mais importante é se apegar a um Deus, que eu não acredito, mas acreditem, eu sinto muita falta dele. Eu, me apeguei aos livros desta vez e funcionou. Tomara que eu não tenha que colocar outro desafio deste em minha vida por algum motivo parecido como tornou-se este!!!!

E hoje? Como estou?

Estou bem. Caminhando. Buscando (o quê?!?! Hummmm….ainda estou….. buscando). Com algumas certezas. A conclusão do desafio foi um momento de muita felicidade, de uma vitória, por mais que existam “coisas” de qualidade duvidosa no meio das obras lidas, ainda assim, fiquei muito feliz por concluí-lo. Claro que preferia só ter incluído obras máximas de autores máximos, mas, em muitos momentos, o que eu precisava era de muita distração, aquela distração “barata”, aquela distração “boba”, não filosofar, não meditar, não nada…. só viajar nas letrinhas!

E agora?

Acreditem, o desafio entrou tanto em mim que estou sentindo falta da “obrigação”, entendem? Claro que sigo lendo, diariamente, e claro, que virou hábito escrever sobre o que estou lendo (cada livro está com um papel de anotações dentro), mas estou brigando com a minha cabeça para não “cair na dela” da obrigação e, já comecei algumas daquelas obras que devido ao seu tamanho e/ou contexto não dava para incluir no desafio; claro que, além dessas, já terminei outras e, fico com tentação de sair incluindo o meu parecer neste blog (rsrsrsrs), mas não farei isso com vocês.

Em resumo: estou bem. Estou respeitando meu tempo. Estou me divertindo entre centenas de livros, entre dezenas de amigos e entre as surpresas que a vida nos traz, boas por favor!!!!!

“Uma palavra escrita é a mais fina das relíquias. É a obra de arte que mais se aproxima da vida. Os livros são o tesouro precioso do mundo e a digna herança das gerações e nações.” (Thoreau)

Obras desta última fase:

  1. Lições de amor e tolerância – Jane e Mimi Noland
  2. Felicidade, amor e amizade – Antoine de Saint-Exupèry
  3. Gratidão – Oliver Sacks
  4. As lições de Chico Xavier – Marcel Souto Maior
  5. Rubayat – Omar Khayyan
  6. Sejamos todos feministas – Chimamanda Hgozi Adichie
  7. Uma estadia no inferno – Arthur Rimbaud
  8. Confissão – Paula Pimenta
  9. Dilbert: pausa para o café – Scott Adams
  10. Quem mexeu no meu queijo? – Spencer Johnson
  11. O livro dos manuais – Paulo Coelho
  12. O evangelho segundo o filho – Norman Mailer
  13. Para querer bem – Manuel Bandeira
  14. A vida na porta da geladeira – Alice Kuipers
  15. Uma hora para viver, uma hora para amar – Richard e Kristine Carlson
  16. 007 – Encontro em Berlim – Ian Fleming
  17. O segredo de Brokeback Mountain – Annie Proulx
  18. Auto da compadecida – Ariano Suassuna
  19. A casa de Bernarda Alba – Federico García Lorca
  20. Santiago: caminhos imaginários – Gentil Corazza
  21. A longa noite sem lua – John Steinbeck
  22. Lady Susan – Jane Austen
  23. Histórias militares – Márcio Herdade
  24. Carmen – Prosper Mérimée
  25. Don´t look down on the defilements – Ashin Tejaniya
  26. O livro da areia – Jorge Luis Borges
  27. A botija – Clotilde Tavares
  28. Piano surdo – Olinda P. Gil
  29. Dia de folga: um conto de Natal – John Boyne
  30. Operação Galápagos – Luciana Savaget
  31. As três irmãs – Anton Tchekov
  32. Nietzsche para estressados – Allan Percy
  33. O corno de si mesmo – Marquês de Sade
  34. Cordel – Seu Lunga e outras histórias – Zé Jati
  35. Poemas escolhidos – Emily Dickinson
  36. As lições do mestre – Confúcio
  37. Não nascemos prontos – Mario Sergio Cortella
  38. O túnel – Ernesto Sabato
  39. Me ajude a chorar – Carpinejar
  40. O papel de parede amarelo – Charlotte Perkins Gilman
  41. O cavaleiro preso na armadura – Robert Fisher
  42. A desobediência civil – Henry David Thoreau
  43. Livre – Cheryl Strayed
  44. Fernão Capelo Gaivota – Richard Bach
  45. O ano da leitura mágica – Nina Sankovitch

180. O ano da leitura mágica

Nina Sankovitch, 230p.

“… as palavras têm vida e a literatura se torna uma fuga, não da vida, e sim para dentro da vida.” (Cyril Connolly)

Desde as primeiras semanas do desafio este livro estava na estante, fazendo “cosquinhas” em minhas mãos, mas eu queria terminar o desafio com ele. E voilà! Foi o centésimo octogésimo!!! Ufa!!!!

Confesso que atrasei a leitura deste porque queria saboreá-lo. Além disso, não queria ser induzida pela autora a ler algum livro, ou imitar parte da lista dela, mas sim criar a minha própria, com os meus critérios.

Hoje sei que alguns da lista dela eu já havia lido (6); outros também estão na minha lista (4), outros nunca ouvi falar, outros nem tradução tem; alguns estou com comichão para ler, e assim vamos.

Curti muito a leitura, suas reflexões. Foi a autora deste livro, que impôs a si mesma o desafio de ler um livro por dia durante um ano, como foco para vencer o longo luto (3 anos) devido a perda da irmã, vítima de câncer; e que me inspirou a colocar algum foco na minha vida.

Ela sempre coloca sua irmã falecida nos livros que lê, rememorando seu jeito em alguma personagem ou tentando entender todos os sentimentos sufocantes que a possuem devido a perda da irmã através dos sentimentos das personagens.

Eu não fiz o mesmo, não transferi minha dor para os livros, mas transferi passagens da minha vida. Muitas vezes me vi refletindo sobre minhas escolhas, sobre as pessoas que estiveram ou que estão inseridas em minha vida e nos sentimentos que elas trouxeram ou deixaram para os meus dias.

Transferi dados para tentar entender meus dramas, meus anseios, minhas buscas, meus sonhos e devaneios.

Me vi revivendo momentos ou criando cenas ao lado de pessoas importantes que passaram pelos meus dias.

Minha mente e minha imaginação atuaram como caixas de transferência de dor, emoção, amor, carinho, choro, perdão, gratidão, ódio, cansaço, entre tantos outros sentimentos guardados aqui dentro em todos os cantos do meu ser.

Como a Nina, ao ler sobre as diferentes personagens e as consequências das escolhas que faziam, eu estava descobrindo formas de suportar alegrias e tristezas.

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“Eu estava em meio a uma confusão de dor e medo. Minhas leituras, às vezes doloridas, estavam me tirando das sombras e me levando para a luz.

Ler estava me fazendo ver que minha própria perda e confusão eram iguais às de outras pessoas ao redor do mundo que lutavam para entender o inesperado, o temido e o inevitável.

Compartilhando o fardo do medo, da confusão, da solidão e da tristeza, eu podia compreender meu próprio fardo.”

Foi uma leitura voraz, mas muito proveitosa. Eu realmente esperei bastante para ler esta obra, e quando o fiz foi um deleite. E, mais feliz fiquei porque cumpri meu desafio e cumpri finalizando com o livro que deu início a tudo.

Obrigada Nina Sankovitch! Seu desafio foi muito maior e bem melhor desenvolvido do que o meu, e a admiro muitíssimo por isso, mas me sinto recompensada pelo que alcancei!

179. Fernão Capelo Gaivota

Richard Bach, 135p.

Releitura. Mas, desta vez nova edição, incluindo uma parte inédita, um capítulo inteiro à parte, que o autor justifica nas palavras finais. Ele diz que o capítulo foi escrito junto com os do primeiro livro, mas que ele releu e não acreditou e que por isso não foi incluído inicialmente, mas que não o destruiu e ficou lá no esquecimento, por 1/4 de século. Foi encontrada e como vocês poderão ler, aborda o poder dos governantes e dos rituais, e como isso mata lentamente a nossa liberdade. Na época da escrita, o autor não acreditou que isso poderia acontecer, e foi escrita quando ninguém sabia o que aconteceria. Hoje nós conhecemos o que era o futuro. É preciso avaliar se concordamos ou não, se visualizamos ou não a realidade proposta dentro de todo o conjunto da metáfora.

“Como um profeta que veio ensinar amor e humildade, Fernão Capelo Gaivota tornou-se um ídolo que passou a ser idolatrado, com dia certo, orações e seita. Tudo o que ele não queria e sim queria que praticassem o que ele tentava ensinar. Tornou-se um mito, um culto.”

Todos se lembram da história da Gaivota que tenta sempre superar suas limitações e ir atrás do seu sonho apesar de toda a sociedade (seu bando) dizer que ela não estava ali para tal, e sim que devia seguir o curso normal de todas as demais gaivotas e o que se esperava delas?

fernãoUma fábula para sairmos de nossas amarras e irmos atrás de nossos sonhos, superando nosso potencial esperado, e mais, sem dar a mínima para o que os demais pensam. É sair em busca, acreditando que podemos alcançar. Afastar a ideia de limitação. E, com certeza, no caminho, encontraremos outros que pensam como nós.

A mensagem é a de não se conformar e ir atrás da força que há em você, ou seja, a mensagem clichê dos livros de auto-ajuda, mas que devem ser lembradas vez ou outra, né? Um impulso para algo maior, para sair do marasmo, da zona de conforto.

Para mim, essa é a ideia central.

Eu não sou lá de livros de auto-ajuda; acho que ficar lendo o óbvio é chato; aliás, aqui nas estantes estou tentando encontrar algum…..rsrsrsrs….. mas, neste desafio inclui alguns, mesmo porque todo livro carrega consigo uma mensagem, né mesmo, seja auto-ajuda, seja romance, e não me arrependo. Ler o óbvio acrescentou muito nestes meses; me fez repensar e relembrar o que? O óbvio; mas, que muitas vezes fica alojado em algum cantinho esquecido do nosso ser. É preciso chacoalhar o corpo e a cabeça para reorganizar até mesmo o óbvio.

O texto é simples, a leitura é rápida, e nesta edição há muitas e muitas fotos. Flui com facilidade.

 

 

 

 

178. Livre

Cheryl Strayed, 375p.

Demorei, mas terminei. Comecei, não me senti envolvida devidamente, parei. Recomecei e parei, até que agora…. foi.

LivreÉ uma autobiografia que conta a história de uma jovem mulher que, após se ver perdida com a morte da mãe devido a um câncer inesperado, seu casamento terminar, ela entrar em uma vida de drogas, bebidas e sexo desenfreado, sem esperanças e sem conseguir entender sua cabeça, ela resolve percorrer a Pacific Crest Trail, uma trilha que vai de norte a sul dos EUA, aos 26 anos de idade.

Como a chamada do livro é “a jornada de uma mulher em busca de um recomeço”, eu esperava que ela ficasse sempre sozinha pela trilha, buscando suas reflexões, e não foi isso o que ocorreu. Aí, já viu, expectativas então…. frustrei e me desinteressei.

No retorno a ele, peguei mais leve e vi o quão dificultoso é sair de casa para percorrer centenas de quilômetros à pé, sem quase nada e sem dinheiro, sem nunca ter acampado ou feito uma trilha antes; com equipamentos errados, com excesso de peso. Eu nem consigo imaginar os perigos pelo caminho, o medo, a ansiedade, as dificuldades, as dores, e afins. Uma jornada sobre a própria vida, entretanto, eu não me envolvi com as cenas, com os fatos. Eu li. Mas, achei  interessante  que ela conta seus pensamentos, seus desejos, não há censura, não há “esconderijos” ou politicamente correto. É o que ela sentiu, passou, viveu, descobriu e como ela conseguiu curar as feridas. Você pode sentir sim a renovação, a superação, o tão importante autoconhecimento.

Foi uma busca de perdão. Fico feliz que ela tenha conseguido. É o que eu mais desejo para mim neste momento, encontrar a trilha do perdão e com ele a serenidade.

Uma viagem que virou filme!

177. A desobediência civil

Henry David Thoreau, 80p.

Quando selecionei esta obra para ler, ao abri-la pela primeira vez, pensei… Putz, que droga, acho que vai ser uma chatice, mas…..se você gosta de política e já leu O príncipe de Maquiavel, também vai se divertir lendo ela. Adorei!

Foi escrito em 1849. O autor foi preso porque se recusou a pagar os impostos ao governo norte-americano, pois ele via que o dinheiro arrecadado era direcionado à guerra contra o México, que ele era contra.

Ele expõe de modo inspirador, suas ideias sobre justiça em sociedade e como devemos nos portar para que esta mesma sociedade seja justa. Notamos tanta atualidade na obra, apesar da sua idade que é espantoso.

ADesobedienciaCivil

“Na melhor das hipóteses, o governo não é mais do que uma conveniência, embora a maior parte deles seja, normalmente, inconveniente.”

“… pois o povo precisa de algum tipo de maquinaria complicada, e ouvir sua algazarra, para satisfazer sua ideia de governo. Assim, os governos demonstram até que ponto os homens podem ser enganados, ou enganar a si mesmos, para seu próprio benefício. Isso é excelente, devemos todos concordar.”

“… que cada homem faça saber que tipo de governo mereceria seu respeito e este já seria um passo na direção de obtê-lo.”

Ao que a história indica, foi ele quem inspirou parte do que foi Gandhi, pois no seu conceito, se um governo prendia pessoas injustamente, então quem deveria estar preso eram os justos, correto? Além disso, sua conclusão é a de que a desobediência pacífica é positiva e justa para a sociedade e de que nenhum Estado livre e esclarecido não reconheceria o indivíduo como seu poder mais alto, do qual deriva todo o seu poder e autoridade, e deste modo, deve tratá-lo de forma adequada.

Trata-se de um clássico, mas daqueles geniais que devem ser lidos por todos nós!

 

 

176. O cavaleiro preso na armadura

Robert Fisher, 110p.

Uma fábula, um conto nos moldes do Pequeno Príncipe onde há a busca do verdadeiro eu, um encontro de verdades.

cavaleiro presoNa trama um cavaleiro fica preso em sua armadura e assim se distancia de todos, porque desta forma, ele estaria pronto para salvar as donzelas e assim manter seu castelo e sua família sempre abastados, o que importava era o trabalho.

Ops?!?!?! Alguma similaridade com algumas situações do mundo atual?

Percebi que toda a metáfora da trama somos nós. Ao longo dos anos, com tantas situações difíceis, vamos nos blindando, colocando a carapaça de proteção contra sentimentos, ferindo aqueles que nos cercam, nos afastando de pessoas e situações que seriam maravilhosas para nosso ser, mas que porque podem nos causar algum tipo de sofrimento mais à frente, ou que nos obrigariam a sair de alguma zona de conforto, deixamos simplesmente que se vão, e isto tudo nos leva a um abismo, uma solidão.

Hoje em dia, a sociedade julga demais e muitos não estão preparados para não se preocuparem com esse julgamento. Para mim, o importante é o que eu penso de mim mesma, se eu estou agindo dentro do que eu acredito seja o correto.

É preciso deixar de lado o mundo capitalista, frio e calculista e sentir mais com o coração, com a amizade, com a lealdade, a sinceridade e não passar feito rolo compressor pela vida das pessoas, deixando cicatrizes.

Conheço pessoas que sim se perderam e não conhecem o seu verdadeiro eu, seguem cometendo os mesmos erros, suprimiram o amor da vida delas, exceto o vício da paixão (dependentes de conquistas) e estão envelhecendo e ficando cada dia mais sozinhas, que, como o cavaleiro da fábula, criaram uma armadura intransponível. São autoritárias, intransigentes, mesquinhas e, ao meu ver, tristes e solitárias.

Confesso que sou uma forte candidata a tudo o que escrevi acima, e que estou aprendendo a não seguir esta trilha. Obrigada as amigas que estão sempre abrindo meus olhos.

Aprendi que não devemos nos blindar, nem sermos indiferentes a tudo e a todos. Que os sentimentos são mágicos e devem ser vividos quando não passam por cima de nada e de ninguém. Que todos temos necessidades, anseios, dúvidas e estar presente faz toda a diferença. Que nunca estarei pronta, que o processo de aprendizado e crescimento é cíclico. Que eu devo seguir a voz que vem de algum lugar de dentro de mim (que eu na maioria das vezes, burra, não sigo). Que eu também preciso falar e expor o que vem do meu coração (e nem sempre digo também – olha o medo da rejeição).

Precisamos sair do nosso aprisionamento. Sair das barreiras de proteção que construímos em volta de nós e seguir.

Com tanta interpretação, vale a leitura!

175. O papel de parede amarelo

Charlotte Perkins Gilman, 110p.

Obra lançada em 1892, que foi inicialmente rejeitada por alguns editores, pois trata-se de um confronto das políticas sociais. Parece haver muitos fatos autobiográficos na obra.

papel de parede amareloPara tratar a esposa, um médico aluga uma fazenda para ali ela se recuperar emocionalmente. Um local bonito, mas ele a instala no que era um quarto para crianças, com grades e um estranho papel de parede amarelo. A personagem principal é uma mulher deprimida e que está submetida a um tratamento estranho. Ela quer trabalhar e escrever, mas a cura para a sua disfunção nervosa, é não fazer nada, apenas repouso e esvaziar a mente. Vixi…. ai que eu ficaria mais maluca ainda?!?!?!

A trama toda é uma violação intelectual e emocional. Toda a narrativa é discreta. Os parágrafos são curtos. Há classe e discrição nas frases. O fim da personagem parece ser uma acusação às pressões sociais incapacitantes impostas às mulheres na época; fato visualizado em outras obras de outras autoras.

Portanto,  uma crítica de como a mulher era tratada naquela época, sem ser levada a sério e sempre dependente do marido.

Confesso que a escrita, uma forma de diário da personagem, e seu estado de espírito às vezes me confundiram, e eu tive que retornar, rever, repensar, mas para ajudar há um posfácio que poderá ajudar a compreender a importância da obra e da autora.

A autora foi uma feminista, com muitos textos não ficcionais sobre a condição da mulher no seu tempo. E esta fase começou porque ela precisava sobreviver financeiramente, então começou a dar palestras sobre a situação das mulheres. Ela era separada/divorciada. Lutava contra a hostilidade da opinião pública, foi professora, editou jornais, manteve uma pensão e aceitou o casamento de seu ex-marido com sua melhor amiga a quem confiou a filha, o que trouxe mais hostilidade pública.

Para mim, o que parece ser mais triste, é que apesar de ter passado tanto tempo, ainda enfrentamos os mesmos problemas, ou boa parte deles, que a autora diagnosticou e descreveu.

Ainda hoje muitas mulheres são educadas para o casamento, mas não podem buscá-lo de modo ativo, e sim esperar passivamente que sejam escolhidas. Como resultado, o de sempre: tensão, hipocrisia, falsidade, ênfase excessiva no sexo.

Muito bom!

174. Me ajude a chorar

Carpinejar, 155p.

Contracapa:me ajude a chorar

“O quanto um livro pode mudar sua vida?

Mudar não, mas pode dar sentido a tudo o que sofreu. Pode explicar seu silêncio. Pode resgatar sua dignidade. 

Somos o que ficamos depois de sofrer.

Porque na dor encontramos uma honestidade em que não há em nenhum outro sentimento.

Porque na dor encontramos uma autenticidade em que não há em nenhum conselho.

Ninguém usará disfarces quando sofre. É quando nos conhecemos, nos aceitamos e passamos a amar as pequenas gentilezas e descobertas.”

O livro me pareceu um ode ao amor, um dos temas base e principais da nossa vida. Muitas frases encontraram em mim espaço para reflexão, espaço para análise, espaço para verdade. Com certeza esse será outro post gigante, cheio de frases que já conhecemos, mas que vamos esquecendo ao longo dos nossos dias cheio de rotina e obrigações. Eu estou tentando me manter alerta para os meus próprios pensamentos e minhas próprias crenças, e colocar essas lembranças “no papel”, é uma forma de fazer isso!

O livro traz, como direi, textos abordando medo, saudade, perda, amizade, amor…..textos para você ter certeza de que não está sozinho. Textos que, muitas vezes, te fazem refletir. Portanto, vamos nós a reflexão!!!!!

“A vida é muito curta para ter razão, mais vale é ter amor e perder a razão.”

Quando eu leio o óbvio e sinto que não estamos o seguindo, tenho certeza que simplesmente não o fazemos porque temos medo, porque perdemos tempo arrumando desculpas para não viver o que deveríamos viver, perdemos tempo não enxergando os vivos que estão ao nosso lado, mas vendo os fantasmas que já estiveram conosco ou que nos assustam, transferindo isso para os demais que aparecem em nossos dias. Erro. Erro. Burrice. Um ser é diferente do outro. Fantasmas são lendas. Sigamos nossos dias dando oportunidade as novas chances.

Felizmente eu posso dizer que nunca transferi o que alguém fez para o próximo que surgiu. Seja amor, família, amigo. Felizmente sei que cada ser é um coração diferente e não acho que porque um me magoou, que todos irão fazer a mesma coisa. Consigo não mesclar as coisas e as pessoas.

Mas, uma das coisas que mais eu sinto falta hoje em dia, é da gentileza, e um dos textos aborda claramente essa falta de gentileza, mas daquela gentileza romântica, gentileza como diz o autor, “é o amor em movimento“; é convidar para um cinema de improviso, comprar uma lembrancinha, chamar para um banho junto, perguntar se está bem, coisas simples que significam muito.

O que mais vejo é apenas a gentileza consigo mesmo. Faço porque é para mim, não me preocupo com o outro e eu, vou sentindo falta das pequenas gentilezas. E, por ausência de gentileza, perdemos romances… com certeza comigo perdem o romance mesmo….rsrsrsrs. “O que todos desejamos, inclusive eu, é alguém que diga: não vou desperdiçar a chance de lhe amar!” . Tenho até vontade de rir desta frase. É o que todos nós mais fazemos. Desperdiçamos chances. Mas, temos ciência de que alguém que ama está feliz, não é verdade? É normal. É saudável. É bonito. É fato. No amor há compartilhamento, não egoísmo. E por que não deixamos que o amor invada? Porque muitos estão viciados na paixão. Muitos estão viciados no sentimento arrebatador. Na adrenalina da conquista. Eu, particularmente, como já disse em outras reflexões deste desafio, acho isso uma chatice. Uma perda de energia sem tamanho. Concordo com o Carpinejar, e a vida me mostrou que é verdade, “não há pessoa errada, o que existe é pouca insistência.”

Não que tenhamos que passar uma vida com alguém porque ela surgiu em nosso caminho, mas não temos que usar o outro em proveito próprio e fugir por medo do envolvimento. Já falei sobre isso também…. o que mais observo é a procura do que o outro tem de ruim, de aspectos que não atraem, ao invés de focar em tudo o que aquela pessoa carrega de bom e poderá trazer para o dia a dia, para a paz, para a calma do coração. E não, não acredito em relações relâmpagos e felizes. Acredito que o sentimento vem aos poucos, quando damos oportunidade do outro se despir dos seus medos. Comigo funciona assim. E acreditem, nada me dói tanto “quanto um amor que não vingou após os cuidados do plantio. Nada dói tanto quanto a saudade que envelhece, uma saudade que definha pela indiferença, que não foi valorizada pela nossa companhia.”

Já estive em relações com pessoas que, à princípio pareciam não ter nada a ver comigo, entretanto, foram pessoas que trouxeram alegria aos meus dias, trouxeram compreensão, trouxeram carinho e beleza e, mesmo que após anos a relação acabou, acabou de modo salutar, sem deixar mágoa. Para mim esse é o ponto, a lealdade, que é esclarecer as dificuldades, expor o que se pensa, o que se procura, manter o outro em dia com os problemas, auxiliando nas soluções, deixando claro o que se sente e as intenções. Sim, ser leal. Quando somos leais, a relação é salutar. É preciso ser leal com o outro e com o amor, é “preciso esgotar as chances e não abandonar a tentativa”, é preciso buscar a solução juntos, antes de haver mágoa. Porque para tristeza (e lógico que eu fiquei triste quando essas relações acabaram) há cura, mas para mágoa, ai a coisa fica bem mais complicada!!!

Meninos, caso algum leia este post um dia, tenham certeza que a mulher, a verdadeira mulher, gosta sim de homem que se entrega, daqueles que não se omitem, que não jogam, que são seguros no discurso. Acreditem que a mulher verdadeira sabe o que significa aquelas frases chavões que vocês usam imaginando que estão enganando alguém. Deixem de usar metodologias baratas para nos afastar da vida de vocês só porque vocês estão fugindo do que estão sentindo ou porque vocês precisam entrar em nova conquista (olha a sociedade machista ai gente).  Deixem de ser covardes. Sejam o homem que vocês gostariam que nós, verdadeiras mulheres, o vissem.

Mas, aqui tenho que abrir um parênteses, já que comecei todo esse discurso para falar de gentileza, e seria muito injusto se eu não agradecesse vocês, minhas amigas, porque tenho recebido muita gentileza, muita mesma, das amigas, daquelas que sabem o que estou vivendo, elas sempre escrevem, ligam e aparecem para saber como estou, não me deixam sozinha e se preocupam, e eu agradeço imensamente, todos os dias a presença de cada uma, porque sei que elas também estão passando por momentos difíceis (cada uma com um problema diferente), e mesmo assim ainda têm tempo de se preocuparem comigo? Poxa, quanta gentileza. Obrigada meninas!

No mais, o livro aborda ainda saudade, lembrança e afins….. nem vou começar a viajar nas minhas saudades……rsrsrsrs

Divirtam-se e me desculpem pela “viagem nos meus sentimentos”!

173. O túnel

Ernesto Sabato, 150p.

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A trama envolve uma paixão avassaladora e confusa, como normalmente são as paixões. Envolve aquele sentimento mesquinho da posse, que leva à loucura. Nele, observamos quanto o amor pode ser dor.

As descrições das cenas são perfeitas e as ações são sequências de maestria. Os sentimentos das personagens estão ali, mas não interferem na narrativa. É sensacional! Mesmo sabendo desde o princípio do que se tratarão as cenas, não sentimos piedade. O mais legal, é que é um pouco confuso o que vou dizer, mas você sente os sentimentos das personagens.

Escrito em primeira pessoa, nos dá a sensação de estarmos visualizando tudo, participando e podendo dar palpite. A narrativa é muito envolvente, com muita qualidade.

O livro a meu ver, destacou uma coisa muito importante que nós carregamos, o temor de revelarmos os aspectos sombrios de nossa personalidade, isso nos assusta, e assusta muito quando temos consciência de que a nossa mente manda. É preciso cuidado. Eu aprendi a viver os meus sentimentos, sejam eles considerados ruins ou bons. Entendi que o ódio e a raiva passam, mas que não devem ser camuflados, só que tenho que ter muito cuidado com as minhas ações quando estou envolvida por sentimentos tão negativos, pois muitas vezes meti os pés pelas mãos? Sim. Muitas vezes sai da minha razão. É quase como se eu estivesse em constante contato com a loucura, portanto preciso de concentração, de reflexão, de quietude para não sair do “meu eu”. Vida ensinando.

A personagem principal conta-nos seus mais angustiosos pensamentos e seus atos devido a tantos sentimentos conflitivos.

É uma obra existencialista, e como cita .Dos meus livros, “considero o existencialismo como a corrente literária mais profunda e profícua: por esse mergulho às profundezas da alma humana, esmiuçando os seus cantos mais remotos e assim fazendo com que o leitor reconheça aí os seus próprios fantasmas, ilusões e sonhos“.

Escrita magistral. Romance de 1948, com capítulos curtos, mas intensos. Uma delícia de se ler! Recomendo muito!