118. Nosso GG em Havana

Pedro Juan Gutiérrez, 127p.

“A filosofia cristã é imperfeita demais. Foi manipulada e tergiversada até dizer chega, e agora só serve para inocular remorsos no espírito dos seus seguidores.”

Graham Greene, isso, o escritor, é uma das personagens desta trama que se passa na década de 1950 em Havana, onde há escritor, falso-escritor, polícia, jogo, homossexualismo, nazismo, assassinato, suspenso, sexo, humor, em uma mescla que parece sem pé nem cabeça, mas que no final, os fatos apresentam-se unidos, ligados uns aos outros.nosso-gg-em-havana

A obra é uma das poucas ficções deste famoso escritor cubano.

É dinâmico, com real misturado a ficção. As personagens são as típicas dos livros de Greene, mas o ambiente é o típico de Havana, daquele que eu imagino que seja Havana, principalmente da Havana da década de 1950.

Fica a dica para conhecer este autor e quem sabe, encarar sua obra mais famosa: Trilogia suja de Havana.

117. A febre das tulipas

Deborah Moggach, 286p.

Com a viagem para a Holanda para ver as plantações de tulipas agendada, me inspirei e resolvi encarar uma obra com o tema.livro-a-febre-das-tulipas-deborah-moggach-sebo-do-joo-761901-MLB20444939624_102015-O

Nesta, eu lia e pensava, como o ser-humano pode ser perverso em se tratando de sua própria felicidade. Como podemos sacrificar a felicidade de alguém em favor da nossa própria? Essa é a trama básica do livro e mostra frieza, perversão, falsidade, deslealdade e tudo de ruim que nós humanos carregamos dentro de nós, mas que temos a opção de deixar aflorar ou não.

Na obra, as personagens passam por cima de todos para viverem sua felicidade; mas quem pode viver feliz sabendo que fez a infelicidade de outrem de modo consciente? Só os crápulas, os sem coração e os imaturos!

A trama se passa no início do século XVII e envolve o pintor Jan Van Loos e também o negócio das tulipas, que tornou-se febre na época. Ambos existiram, tanto o pintor, quanto a febre do negócio das tulipas. Nas obras de Van Loos, há uma modelo desconhecida, e a autora desta obra, idealiza uma trama para esta modelo e o estilo de vida do pintor. Spielberg adaptou esta obra para o cinema e a crítica diz que se trata de um divertido romance. Será?

Em muitos momentos quis fechar o livro e não voltar a ele, de tanta dor e aversão que senti das atitudes das personagens. Em outros momentos, eu queria pular frases, parágrafos, para não sofrer; mas, mesmo com o coração aturdido eu segui. Quando a personagem pensa: “Nenhuma pessoa no mundo infligiria tal sofrimento a outra….“, eu quase comecei a gargalhar…. “sabe de nada inocente!!!!”

O desfecho, como sempre, não cabe neste relato. É preciso encarar a leitura.

Apesar de todo o sofrimento que eu senti, é um bom livro! Mesmo porque, os sentimentos são pessoais, dependem do que passamos por nossas vidas, e talvez para alguns, trata-se apenas de uma comédia.

Mãos à obra!

 

116. Juventude

Joseph Conrad, 79p.

Fidelidade de um grupo de homens a um velho navio que explode, pega fogo e sofre diversas mazelas em rumo a Bangkok para realizar comércio.Juventude

O autor, que foi marinheiro (na verdade chegou a oficial) por 20 anos, teve vasta experiência para dar pano para a trama desta obra. Ele era, originalmente ucraniano, mas em 1886 (nasceu em 1857) obteve a cidadania britãnica, e hoje é considerado um dos grandes autores da língua inglesa. Em 1924, ele declinou da proposta de ser sagrado Cavalheiro da Coroa Britânica.

Nesta obra, cinco homens se reúnem para contar velhas histórias. Eles ouvem o relato de um marinheiro (Marlow) sobre sua experiência no mar quando era jovem (daí o nome do livro).

Eu que já fui “marinheira” consegui perceber a euforia e a expectativa do jovem pelas descobertas, pelo mar, porque o mar é um convite para o mundo. É um conto de fadas recheado de aventuras em nosso imaginário.

No caso da obra, muitos “perrengues”. No meu, o “perrengue” era laboral, mas quando havia um tempinho eu ficava olhando a imensidão do mar e pensando em como nós somos absolutamente nada. Sentia uma paz. E as surpresas das baleias, golfinhos, ilhotas perdidas no meio do nada, cruzamento com outros navios, montanhas ao redor, glaciares, icebergs, aves…. tantas surpresas boas e sensações positivas.

Continuo respeitando e admirando o mar. Continuo perplexa diante da sua imensidão, e a obra de Conrad me levou a reviver momentos, e rir e chorar.

115. Sua majestade, o deserto

Magda Raupp & Dione Pasquotto, 108p.

Interessante jornada de duas mulheres maduras por 250 km à pé pelo deserto do Saara.

majestade o deserto

Não, nada de aventura radical sem água, comida, roupa, etc. Um pouco de frio, um pouco de falta de infra-estrutura, mas nada que não havia sido informado antes, quando elas procuraram a agência que as levou a viver toda a emoção do deserto; afinal, é um local que nos remete a aventura, fantasias, miragens, Lawrence das Arábias, camelos, odaliscas, tempestades de areia, sol e afins.

Elas contam como foi ficar sem banho ou não ter banheiro ao longo da jornada. Como foi encontrar um oásis. Como o lixo era descartado. Como a comida foi preparada sem latarias e caixas de papelão para acondicionar os ingredientes. Como foi ter pão fresco todos os dias. Para nós, seres das selvas de pedra, é interessante e muito diferente.

Foi uma leitura legal, mas eu não me inspirei a participar da caminhada. Quem me conhece sabe que eu amo uma aventura leve, amo conhecer lugares novos, mas sem tanto esforço.

Para a minha mente, ir ao deserto, ver as dunas, passar um dia e uma noite em caminhada leve para ver como os beduínos vivem estaria de ótimo tamanho.

Cada um com seu estilo de aventura…. ah…. e de leitura também!!!

114. A invenção do Brasil

Jorge Furtado e Guel Arraes, 190p.

livro-a-invenco-do-brasil-A história do degredado Diogo Álvares, que em terras brasileiras se tornou rei de uma tribo e ficou conhecido com o Caramuru e se casou com a índia Paraguaçu em uma versão pitoresca que é minissérie e filme para a telona.

Leitura de comédia cujo tema central é o nosso País. Mistura ficção e realidade, com a época do descobrimento reproduzida, entrando em Lisboa, demonstrando hábitos, práticas, costumes, diferenças entre europeus e índios; a exploração sob um ponto de vista divertido, mas sempre com a crítica sendo pincelada por quem lê.

Adoro história e falar sobre o meu próprio País sempre me esclarece o momento atual, ou os hábitos e crenças que possuímos enraizados. Sempre interessante ler sobre a perspectiva de outro alguém, mesmo sendo uma ficção, conseguimos separar e encontrar a realidade entre as palavras.

Valeu!

113. Confidência africana

Roger Martin du Gard, 72p.

Mais um Prêmio Nobel para a lista; desta vez o de 1937.

confidência africana

Livro rápido, contando uma conversa entre o autor e seu editor à bordo de um navio que o traz para a França. São as confidências do livreiro. A história de um amor de sua juventude e as implicações disto em sua vida.

Aborda o incesto, mas não há julgamento, não há análise externa, apenas os fatos. O ouvinte, no caso o autor, nunca intervém, só escuta.

A simplicidade é a força da narrativa. As críticas francesas sempre mencionam sua sobriedade de estilo, sua escolha precisa do vocabulário. Eu achei a narrativa sóbria e linda. A história pesada, mas que faz jus ao nome que carrega o autor.

112. Salão de beleza

Mario Bellatin, 80p.

“canso muito rápido das coisas que me atraem. O pior é que depois não sei o que fazer com elas.”

Autor mexicano que eu não conhecia. Mas em 2007  uma revista colombiana publicou uma lista com os 100 melhores romances em língua espanhola dos últimos 25 anos e lá estava Bellatin, entre Gabriel Garcia Márquez, Mario Vargas Llosa, Roberto Bolaño e outros.

salao de beleza 1Na trama desta obra, um jovem que além de cabeleireiro, é travesti, transforma seu salão de beleza em local onde aqueles acometidos por uma peste e estão em fase terminal, vão para aguardar seus momentos finais.

O protagonista, que cuida de todos sozinho, tem uma compaixão tão sem sentimentalismo que faz com que o vejamos em partes como um mártir, e em outras como um carrasco.

Ele segue regras estritas e diz que em seu “Morredeiro” ninguém está cumprindo sacerdócio, mas sim obedecendo a um sentido mais humano, prático e real.

No meio da trama, aquários que já viveram melhores tempos são metáforas com peixes que vão desaparecendo.

Como é um livro escrito no início da década de 1990, auge do medo em relação à AIDS, eu logo associei a trama a essa enfermidade; afinal, na realidade da época, assim como no livro, havia muito preconceito em relação aos que eram acometidos pela enfermidade, sendo abandonados, esquecidos. Era um tema tabu.

Eu vivi nesse tempo, já era adulta, estudante universitária, e havia tanto tabu, tanto medo, tanto preconceito, tanto absurdo.

A obra, a meu ver, é um ode ao preconceito da época, e que, com certeza, ainda hoje deve persistir na cabeça de alguns ignorantes.

111. Cinco histórias do bruxo do Cosme Velho

Machado de Assis, 86p.

Queria muito incluir no desafio um autor nacional deste gabarito, mas confesso que não tinha a menor vontade de reler nenhuma das grandes obras da literatura brasileira da época.

Aí, mais uma vez um sebo salvador, me mostrou esse livro do Bruxo do Cosme Velho, ou seja, Machado (me sentindo íntima, né???), com textos que eu não conhecia.

São 5 textos publicados em jornais no século XIX, compilados com o objetivo de apresentar o autor de Memórias póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro e Quincas Borba, ao público jovem.machado de assis

Foi legal.

No primeiro conto um diálogo entre dois pés de uma bota. Como?!?!?! Isso mesmo! Parece até coisa sem pé nem cabeça vindo de Machado.

No segundo, outra loucura, a vida pela perspectiva de um alfinete.

Um canário que muda sua visão de mundo e esquece o anterior cada vez que sua vida toma nova rumo, é o tema do terceiro conto.

No quarto, um sultão até muda o idioma do seu País para ganhar um concurso e conquistar o seu amor … ahhhh, leiam para saber o que acontece!

E o quinto me foi uma surpresa. Um poema. Machado escrevia poemas? Parece que sim. Como vocês já conhecem a minha dificuldade com poesia, tive que ler este duas vezes. Triste, muito triste…. sim, eu ter esta limitação e o poema também. Tive vontade de chorar.

Uma obra diversificada com um outro lado de Machado (olha a intimidade de novo!!!).

Tomara que a bruxaria do autor, criador da Capitu e do Bentinho, tome o coração de outros leitores como tomou o meu desde o tempo em que eu era jovem (mas nem faz tanto tempo assim, né??? – rsrsrsrsrs).

110. Confissões de um turista profissional

Kiko Nogueira, 94p.

Algumas vezes vi este livro nas prateleiras das livrarias, mas nunca achei que o valor condizia com o seu conteúdo; e estava certa. Só que o adquiri em um sebo por um preço justo ao que ele trata.turista profissional

Viajar é meu forte (acho que de muitos). Amooooo!!!! Livros de turismo e aventura frequentam minha estante e minha cabeceira. Assim encarei mais este.

O autor, jornalista, entre outras tarefas, foi diretor de redação de uma revista especializada em viagens e de suas andanças, saiu este livro, que dá o seu parecer perante diversas situações turísticas.

Tem humor. Os “causos” são curtos. às vezes concordei com a opinião dele, em outras não, e foi por isso que gostei. Essa diferença de opinião é que vale a pena. Ler uma versão diferente daquilo que acreditamos é a parte boa. Olhar o mundo com um “olhar” diferente.

109. A descoberta do novo mundo

Mary del Priore, 109p.

A autora, historiadora já nossa conhecida, entrou no desafio e eu fiquei feliz. Gosto da maneira como ele escreve, da escolha dos seus temas, por sempre abordar a história do Brasil.

A_DESCOBERTA_DO_NOVO_MUNDO_1374600339BEsta obra não foi exceção, e mais uma vez, foi interessante ler sobre o País, afinal, muitas vezes aprendemos como se iniciaram as mazelas que vivemos até hoje. Repetição da história, pura e simplesmente. E o melhor que esta obra foi escrita para o público jovem. Ótima maneira de despertar a crítica sobre temas visualizados até hoje na política nacional, e de forma branda, com linguagem própria para o conhecimento deles.

Nesta obra, a perspectiva das crianças portuguesas (órfãos) trazidos ao Novo Mundo (Brasil).

Durante o decorrer da trama, as personagens trabalham em uma nau a caminho do Novo Mundo, convivem com os jesuítas, atravessam a Mata Atlântica, conhecem lendas e, ao mesmo tempo se desenvolvem, iniciando sua vida sexual, presenciando as injustiças e aprendendo a respeitar diferentes culturas.

Aprendi, por exemplo, o que significava,  para os portugueses, o “língua”  que vinha para o Brasil com determinada função. Era o nome dado aqueles portugueses que aprendiam a falar tupi para comunicarem-se com os nativos e atraí-los para a vida civilizada.

E onde era a Nova Lusitânia? Vocês sabem? Eu sei…. atual Pernambuco. Seu donatário – Duarte Coelho – fundou a vila de Igaraçú (hoje Olinda) e plantou os primeiros pés de cana-de-açúcar. Era um grande visionário e empreendedor, já naqueles tempos preocupou-se com a poluição dos rios. E sabem o que aconteceu com ele? Pediu ajuda ao rei D. João III que respondeu mandando Tomé de Souza à Olinda para diminuir os poderes do donatário. Desde sempre ninguém pode querer fazer algo corretamente que o governo “cai a pauladas”. Ôh herança maldita!

Duarte Coelho, diz a história, morreu literalmente de tristeza quando foi mal recebido pelo rei.

Além dessa, há muitas outras curiosidades históricas mencionadas na obra.

Vocês, por exemplo sabem o que vem após passar os perigosos arrecifes de “Abra os olhos” ou Abrolhos (nunca havia associado os termos), chega-se ao Espírito Santo.

Para os indígenas, que eram muitas tribos: potiguar (inimigos de Portugal); tremembé (mergulhadores e nadadores); tabajara; caeté (devoraram o bispo Sardinha); tupinamba (o maior grupo); aimorés (bravíssimos); tupiniquim (os primeiros a avistar portugueses); goitacas (violentos e canibais); carijós (os mais dóceis); tamoios (aliados dos piratas franceses) e os temimino (aliados dos portugueses), conheciam os franceses, loiros, como “papagaios amarelos” e os portugueses eram chamados de “perós” (só não sei porque).

E assim vamos, seguindo as páginas e descobrindo ou redescobrindo histórias.

Não há muita aventura estonteante, de tirar o fôlego, mas vale a organização para se visualizar o início da colonização de nosso País!