80. Viagem sentimental ao Japão

Paula Bajer Fernandes, 235p.

A capa deste livro é maravilhosa, um colorido de muito bom gosto, que com o título me chamou atenção, afinal quem me conhece sabe o quanto eu gosto da Ásia, do quanto eu sonhei em conhecer o Japão e da minha alegria em ter a chance de ir, e da tristeza e choro quando tive que retornar na segunda vez em que tive a oportunidade de estar lá, portanto sempre que algo vem associado ao Japão, eu dou uma olhadinha… e este livro não escapou e veio para a minha estante.

viagem sentimental ao japão

A leitura foi razoável porque não aborda o Japão somente (mais uma vez olha a expectativa destruindo uma imagem, né?), mas sim as peripécias de uma agente de viagens que só realizou uma viagem em sua vida, uma visita ao Rio de Janeiro, mas que adora viajar nas leituras, e engana o dono da agência dizendo que conhece muitos e muitos lugares deste mundão, sendo contratada e fazendo roteiros para muitos dos clientes. Um deles quer um roteiro para o Japão, que é o sonho de viagem da protagonista.

A leitura flui, mas não do modo como gosto; em alguns momentos empaquei e muito, e algumas outras obras passaram na frente desta. Aí eu olhava para a capa dele de novo, e lá ia eu ler mais um pouquinho.

A protagonista Anette, em seu curso de Letras, especializou-se em literatura de viagens, portanto consegue narrar suas viagens imaginárias de forma muito convincente. Entretanto, não é disto que se trata o livro. É até confuso explicar… na verdade você vai divagando sobre os problemas cotidianos da protagonista junto a família, ao emprego, futuro, amigos (que ela não tem), sua personalidade a afins; mas ao mesmo tempo há diversas passagens abordando o tema viagens.

A escrita é diferente, pois os parágrafos são curtos e a leitura, caso você se identifique, irá fluir de forma espantosa.

Não posso contar o final, senão perde a graça, né? Vão vocês a livraria e encarem a viagem!!!!

79. FUP

Jim Dodge, 94p.

Como diz a contracapa “FUP conta as aventuras de um velho beberrão que fabrica seu próprio uísque, educa um neto órfão de maneira menos ortodoxa possível e sustenta uma pata gorda demais, que não consegue voar, e que acaba sendo a personagem principal desta novela…”

FUPTodo o resumo está aí, mas o autor é mais do que isso. Ele consegue nos remeter a imaginar as imensas possibilidades de nossas escolhas na formação da nossa própria história. Abre a nossa mente sobre a simplicidade da vida, sobre o que  é importante no viver, sobre a liberdade, como as diferenças podem ser aceitas e assim gerar uma convivência gostosa.

Trata-se de uma fábula porque tem cenas surreais, mas mostra como seres tão diferentes podem conviver com respeito mútuo.

Tem passagens divertidas, outras nem tanto, algumas comoventes, em uma linguagem direta.

Conheça o autor e tire suas próprias conclusões.

78. O apicultor

Maxence Fermine, 164p.

Comecei. Parei. Recomecei. Parei. Até que foi…. aí me senti lendo um poema. Não sei explicar porque tive essa sensação, mas verdadeiramente foi como me senti.

apicultor

Com capítulos curtos, um romance que acontece em 1885, na Provence. Uma busca por algo que se carrega no coração. Bonito, bem bonito!

Vamos em busca dos nossos sonhos, mas vamos em busca sem prejudicar o outro, com honestidade, com paciência, e assim obteremos um final onde todos serão felizes, apesar de todos os caminhos tortuosos da jornada.

Essa foi a minha conclusão após terminá-lo.

Sei que parece o óbvio, mas é um óbvio que te envolve, que te faz participar da estória e sofrer junto, e torcer pelas personagens.

Não tenho muito a dizer. Só que foi bom se sentir abraçada por um poema. Foi uma sensação de aconchego.

77. Viagem ao país do futebol

Mário Magalhães / Antônio Gaudério, 144p.

Eu tenho que começar apresentando uma passagem do livro:

“O atacante Carlos Alberto saía de campo ao fim da partida, quando um repórter o entrevistou:

– O que você achou do jogo?

– Eu não achei nada, mas o Aldir achou um cordão de ouro.”

O que você pode fazer ao ler uma passagem assim: claro que morri de rir. Engraçadíssimo, e real. Aconteceu em Roraima.

Mas não são apenas de anedotas que se faz o livro. Não!!! Apresenta as muitas mazelas do esporte quando este não é o de ponta; aquele que está nos campos de barro, nas curvas dos rios, no meio da floresta, do sertão, ao longo deste “Brasilzão” imenso que tem no futebol a preferência nacional.viagem ao país do futebol

Sim. Mazelas. Muitas mazelas.

As dificuldades dos times lá na Amazônia para participarem dos campeonatos; a falta de dinheiro; soluções inusitadas (no Rio Grande, uma taça foi serrada pela metade e dividida por dois clubes para que não houvesse briga); “causos” (índios da tribo fulniô jogam falando o idioma iatê para confundir os adversários); dramas; alegrias; esperanças.

Futebol não é meu tema, não. Sinceramente nem ligo para este esporte, principalmente no caso dos ditos profissionais. Aliás, acho uma chatice o sensacionalismo em cima de tanto perna de pau que estão mais preocupados com sua imagem e permanecerem na mídia do que desenvolverem o seu trabalho, ou o que deveria ser o trabalho. Mas essa leitura teve partes bem gostosas, apesar de muitas serem bem tristes e verdadeiros desafios. A velha realidade brasileira!!!

Nem sei o porquê do livro cair em minhas mãos, mas uma vez lá encarei. Foi algo diferente, foi algo que não está no meu cotidiano de leitura e valeu a pena. Fiquei imaginando os repórteres atrás das reportagens e imagens pelos confins do País.

Se você gosta de futebol pode rir um pouquinho e se indignar outro tanto.

76. Sobre Alice

Calvin Trillin, 93p.

Uma declaração de amor. Sim. Essa é a base do livro. O autor dedicou tudo o que escreveu a sua esposa, Alice, que agora já não está entre nós e terminou com esta linda declaração de amor. Um livro.

Claro que eu morri de inveja!!!! Rsrsrsrsrsrs…….

sobre alice
Esta é a contracapa, para que todos conheçam a lindíssima ALICE

Leitura rápida mas que me prendeu, não consegui fechar o livro sem terminá-lo, pois suas passagens são bonitas, são engraçadas, são cativantes, são amorosas.

São flashs da vida em comum. Recordações desde o momento em que se conheceram até o casamento das filhas, passando por amigos, doença, família e a vida em geral. Não há cronologia, não há dificuldades na sequência.

E mesmo lendo recordações, eu não fiz associações as minhas recordações, foi interessante me prender na história, sem me lembrar do que vivi, do que vivo e sem perspectivas do que acontecerá daqui para a frente. Esse é o meu principal objetivo quando leio. Leitura é o meu momento fantasia. O meu momento “preciso dar um tempo e viver a vida de outrem”. E com este livro funcionou bem!

Uma declaração de amor com muito humor, apesar das passagens tristes (quem não tem na vida?).

Gostei bastante. Adorei conhecer Alice! Recomendo essa leitura leve, gostosa!

75. As cidades invisíveis

Italo Calvino, 150p.

Diomira, Isidora, Doroteia, Anastácia, Zora, Despina, Zirma, Isaura, Maurília, Fedora, Eufêmia, Armila, Eutrópia, Otávia, Ercília, Leandra, Esmeraldina, Adelma, Clarisse, Olinda…. são essas e outras, as cidades (ou serão mulheres?) descritas por Marco Polo ao Grande Kublai Khan, nesta obra do famoso autor italiano. Na verdade, cidades, todas com nomes de mulheres, em um total de 55.

cidades invisíveisO autor cria diálogos entre as duas personagens com descrições interessantes. O livro foi publicado na época do que a literatura chama de “realismo mágico”, então, que extrapola a realidade.

Nós leitores podemos imaginá-las, assim como Kublai, mas não saberemos como chegar nelas e suas localizações, o que permite uma leitura não linear.

É uma literatura fantástica onde eu, particularmente, não cheguei a local algum, são descrições tão sucintas, efêmeras, muitas vezes com metáforas, que nos deixam no ar. Interessante!

Confesso que tive dificuldade de me manter atenta a leitura devido as suas flutuações, com capítulos curtos que devem ser lidos com muita atenção, para que não passemos pelas cidades voando e sem perceber nada. Leitura difícil? Sim; principalmente quando você começa a associar as descrições aos sentimentos humanos.

O texto apresenta muitas palavras que necessitam de um dicionário, e que eu, confesso, não usei, apesar da minha curiosidade se aflorar em alguns momentos, mas como sempre, minha diversão é ler sem obrigações, então….. a preguiça não permitiu o desenvolvimento de qualquer erudição em minha pessoa. Apenas segui me divertindo.

Não havia lido nada do autor até o momento e, como sempre, adorei ampliar meus horizontes neste quesito!

 

74. Podemos dizer adeus mais de uma vez

David Servan-Schreiber, 137p.

História real, que eu, como sempre, adoro. Neste caso, é triste, pois o o livro se trata de uma despedida, uma vez que o autor foi diagnosticado com uma recidiva de um tumor agressivo no cérebro cujo prognóstico era realmente ruim.

podemos dizer adeus

O autor, um consagrado médico psiquiatra, havia sido diagnosticado anteriormente, mas que sobreviveu a ele por mais de 19 anos, estudou e desenvolveu um programa anticâncer onde defende uma postura positiva do acometido aliado a terapias alternativas para auxiliar a medicina tradicional e que foi transformado em livro e tornou-se famoso por isso.

Após este segundo diagnóstico este livro saiu. Momentos de reflexão do autor, abordando tópicos que deveríamos abordar e que muitas vezes são tabus como a própria morte, testamento e outros que são reflexões do que viveu e como foi importante diversas passagens em sua vida.

Não tem tom de auto-piedade, e é muito bom desta forma. O tom é de realidade, de compreensão. Imagine ter que pensar no destino dos seus filhos (um de 16, um de 2 anos e uma de 6 meses de idade) com a sua ausência??? É tocante, com uma lucidez sobre o privilégio de poder refletir sobre a própria vida, sobre as próprias realizações antes do destino final de todos nós.

Apenas uma citação do livro:

“O fato de minha vez chegar mais cedo é triste, mas não constitui uma injustiça monstruosa. De qualquer modo, tive minha oportunidade: conheci pessoas extraordinárias, conheci o amor, tive filhos, tive irmãos e amigos excepcionais, deixei minha marca. Vivi experiências muito enriquecedoras, inclusive a do câncer. Não tive a impressão de deixar passar a vida em brancas nuvens. Se ela terminar aos 50, 51 ou 52 anos, não é trágico. Viver até 80 anos sem ter realizado nenhum dos meus sonhos e de minhas aspirações, isso sim teria sido doloroso.”

Ele morreu aos 51 anos.

Preciso escrever algo mais?

73. A lista dos meus desejos

Grégoire Delacourt, 150p.

“O amor tolera mais facilmente a morte do que a traição.” (André Maurois) – frase mencionada neste livro que aborda, obviamente, uma traição.

Capa A lista dos meus desejos.inddImagine só ganhar sozinho na loteria? Ehhhhh…. quanta alegria! E para a nossa personagem principal, quanto azar!!!! A vida pode dar muitas guinadas não tão simpáticas com a presença de dinheiro em demasia. E foi o que aconteceu com a nossa querida dona de uma armarinho em uma cidadezinha francesa, com sua vida pacata e ordenada, que sai do eixo devido ao prêmio.

Mas sem desespero, o final é tudo de bom – rsrsrsrs – acabei com qualquer surpresa!

Por outro lado, o livro mostra que há sempre um outro lado e que lá também podemos ser felizes.

Eu me admiro com a sagacidade de alguns autores. Neste caso, um homem, que aborda uma personagem principal, repleta de sentimentos e pensamentos femininos, e ele aborda com maestria. Fantástico!

Muitas frases me fizeram refletir, rir ou sentir raiva:

Os homens sabem os desastres que certas palavras deflagram no coração das garotas; e nós, excitadas porque finalmente um homem nos estendeu uma armadilha, caímos como patinhas e somos apanhadas.” (ai… ki ódio!!!!)

“Só nos livros é que a gente pode mudar de vida. Apagar tudo com uma palavra. Fazer desaparecer o peso das coisas. Apagar as ruindades e, no fim de uma frase, descobrir-se subitamente no fim do mundo.” (Chiiii, por que será que me identifiquei com a frase?)

“Ser rico é detectar tudo o que é feio, uma vez que o rico tem a arrogância de pensar que pode mudar as coisas. Que basta pagar para isso.” (Olha a nossa sociedade nesta frase!)

“Há infortúnios tão pesados que somos obrigados a deixá-los partir. Não podemos guardar tudo, represar tudo.” (Reflexão…. muita reflexão)

72. Todas as tardes, às cinco

Gail Godwin, 112p.

A vida de uma escritora e de um compositor que se encontram na própria casa todos os dias, às cinco, para um drinque, através de uma senha engraçada.

Acontece que o compositor deixa de existir e a escritora o sente mais do que nunca nestes encontros que ela usa como rotina e como modo de se manter sã, mas nem tanto.

todas as tardes

Ao longo das páginas vamos revivendo seus dramas, pesadelos e incertezas.

É um livro baseado na experiência da própria autora e eu aprendi com ele como é importante a presença de rituais, hábitos em nossa vida. Como é através deles que mantemos a presença de alguém ou algo bom.

Eu também tenho o meu ritual, aquele que me dá força para seguir e sensação de descanso e desligamento de todos os problemas e sensações que estão ao meu redor. Cuido dele com afinco, com carinho e funciona. Então que sigam os rituais, sejam eles quais forem. O meu é simples: no fim da tarde, quando estou em casa, minha xícara de cappuccino com algum livro em meu sofá, largada e sozinha, sem pensar, sem refletir em meu mundinho e em meus problemas. Funciona? Sim…. muito.

A leitura em si é triste, aliás, dias de leituras tristes, mas confesso que eu gosto muito porque me fazem refletir. Leitura que nos mostra como é duro lidar com a ausência, mas é uma leitura rápida e que flui com naturalidade, sendo bem gostosa.

71. Se só me restasse uma hora de vida

Roger-Pol Droit, 95p.

Amei.

Livro reflexão. Filosofia. O autor é um filósofo, então, não tem nada de “viagem na maionese” nos seus parágrafos. São reflexões sensatas sobre o que realmente importa. Fala obviamente sobre felicidade e sua tolice de esperança de que seja eterna, o que claramente não existe; do erro filosófico de unificar os seres-humanos;  aborda o saber e de como ele é incompleto, além disso, de que não seremos mais donos do universo com mais sabedoria; do quão ignorantes são os filósofos perante o amor; mas o autor não esquece de mencionar e refletir sobre o ódio, sobre a loucura humana, o belo e o infinito; ele faz um exercício de reflexões. Muito bom.

A escrita é diferente. Capítulos curtos e não há letras maiúsculas.

se só me restasse uma hora de vida

Eu, claro, fiquei imaginando o que faria se só me restasse uma hora de vida. E cheguei a conclusão que não sou um espírito superior e sim, eu gritaria e xingaria todos aqueles que me magoaram de alguma maneira, com certeza perderia uns 10 minutos com isso, na sequência uns 10 minutos olhando o mar, a sua plenitude, a sua beleza e assim me acalmando, e o restante do tempo ao lado daqueles que amo, agarrada aos meus sobrinhos, num café bem gostoso (comendo pão de queijo e torta de banana – sim a vida pode ser simples) e agradecendo pela presença dos meus pais até hoje em minha vida, por ter aproveitado a vida porque não posso me queixar de quase nada: namorei muito, fiz muitas amizades, estudei o que quis, viajei quase metade do mundo, realizei sonhos, tenho tanta coisa boa para relembrar, tenho saúde, família, amigos, uma vida confortável, livros….. rsrs. E ficar no café, esperando a chegada de cada amigo que pudesse me dar um abraço.

Queria a companheira de sempre, a Betinha com aquele coração imenso ao meu lado; a Iara com o jeitinho meigo dela; a Raquel e nossos mais de 40 anos de amizade (não era para contar?!?!?!); a turma da natação e aquele monte de histórias bizarras e engraçadas; o sorriso maravilhoso de todos os “Gambinis” juntos (para a alegria da mulherada e com todo o respeito as esposas); o sempre sorriso da Ana Lia; a sempre bondade presente da Claudinha e da Tereza; a inteligência do Fabinho (meu amigo mais inteligente, apesar dele querer ser o mais legal – rs); a morenice da Gege com uma cesta dos seus bem-casados (hummm); a candura da Maristela que com aquele jeitinho dela acalma qualquer um que esteja ao seu lado; a Pat com seu mundo sempre cor de rosa e o Maurinho com suas panelinhas realmente cor de rosa (hahahaha); a Flávia pé no chão; a Pam que sempre entende e respeita meu silêncio e me coloca prá cima sempre elevando minha auto-estima e me levando pra passear ou pra conhecer alguma guloseima; a fofa e sempre emocionada Erikinha (sim, como a Betinha, a Erikinha chora até em comercial de margarina); relembrar os dias de “Vegas” com as Anas e a Karen (elas vão entender); rir da Mariliza rindo do jeito que eu separo a comida prá comer; tentar entender como a Rê (Regina – minha xará de aniversário) pode ser tão prática; elogiar a tranquilidade da Cris Francelly; relembrar as aventuras com a Vivi e as terapias com a Mô; finalmente pagar o café que eu devo pra Jana; dar uma pausa na vida agitada da Maria Rita que tem tantas responsabilidades; torcer pra Dóris e pra Miyuki estarem no Brasil; dar um abraço numas “mocinhas” da RSL (elas também irão entender); tantas pessoas que me trazem tanta alegria.

Iríamos fazer desses 40 minutos finais uma festa do riso e da alegria!!! E que venham mais e mais……

A vida pode ser tão simples! E sim, esse texto foi uma homenagem aos meus amigos… amo muito vocês!

Leiam e reflitam. O livro vale muito, muito a pena!